Chega um momento no qual não existem mais palavras. Existem ações.
Atos.
Fatos.
Ela decidiu que resolveria tudo naquele instante, indiferente para as prováveis consequências. Havia um tempo em que pensava demais nas repercusões de suas atitudes, na dimensão das palavras e dos seusbpensamentos. Hoje, pensava, existia dentro dela uma lei básica e personalizada: eu resolvo e pronto. Foda-se todo o resto. Ele precisa saber.
Tomou um banho demorado (sempre foram demorados e reflexivos). Enquanto ensaboava as bochechas, seu hábito da infância, tentava se acalmar e conjugar todos os verbos em primeira pessoa. Eu me fudi. Eu fui enganada. Eu preciso tomar alguma atitude. Secou-se com a calma beneditina costumaz e decidiu qual roupa usaria. Sim, precisava sentir-se bonita, atraente. Sabia que seu corpo já não era igual ao dos 20 e poucos anos, mas detinha a convicção que poderia fazer dele seu instrumento mais perigoso. Ou mais precioso.
Calçou a bota de cano curto e salto longo. Pensou por um instante que seria mais fácil tomar algumas boletas e esquecer tudo com sonhos e luzinhas coloridas. Bobagem. Era muito mais difícil desistir agora.
Saiu.
Enquanto atravessava a avenida ainda lembrou de alguns momentos (nem tão bons, nem tão ruins). Lembrou que fora uma adolescente tranquila, bons modos, culta. Lembrou das viagens, tanto as lisérgicas quanto as geográficas. Por onde tudo teria se perdido? Fez mal em seguir seus instinto de fêmea e ter se permitido experimentar aquele homem? Tantos pensamentos nausearam sua cabeça e seu estômago. Mas estava perto, não poderia recuar.
Chegou em frente ao prédio fétido e antigo de Pedro. Aquilo tudo era estranho, mas precisava de coragem. Respirou fundo e acendeu o último cigarro - não mais fumaria por um bom tempo.
Entre as primeiras tragadas sentiu dor. Medo. Muita dor. As coxas ficaram úmidas e quentes. Conseguiu sentar-se no meio fio até entender o que estava acontecendo. Em meio a soluços ligou para Ana e pediu socorro, assim, meio perplexa, meio incrédula. Não havia mais motivos para estar ali...
Em meio à dor, ainda alisou a barriga e pediu perdão. Não havia mais volta. Abraçou os joelhos e ficou em transe, sentada no meio fio, esperando.
Esperando.
O destino foi mais rápido e eficaz do que ela.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário